quinta-feira, 30 de outubro de 2014

VAIDADE

A dor é bebida que sacia a inspiração,
que move os medos e os improváveis desejos de ser o outro.
É nela que nos enxergamos,
é por ela que falamos nossos segredos mais íntimos,
perdemos a razão e nos encontramos.
Com a dor dançamos a canção da solidão,
em passos curtos e rastejados.
É a melhor companhia das tardes frias e do espelho,
de um cigarro e de um gole de vinho.
Faz par com a dramaticidade, e tens ali o mais lindo dos casos de amor.
A dor dói, corta e esconde o sangrar.
Os dias são improdutivos,
mas cheios de pedaços de papéis escritos pela metade,
espalhados pela casa.
Alguns discos jogados,
alguns copos e alguns sorrisos no canto da boca,

Pura vaidade!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

PERFUME

É o fim.
E, mais uma vez, eu juro de pés juntos.
Não vou mais ligar e nem te lembrar no café,
não vou mais beijar lembrando teu gosto,
nem ouvir aquela música predileta,
nem comprar teu perfume só pra te sentir.
Sim, é o fim.
Com ponto final e tudo,
com novo amor,
com novos sonhos.
Agora, só aperto no coração,

e uma brisa de saudade.

ÂNCORA

Sim! Eu pensei por alguns instantes em seguir,
deixar o barco.
Eu pensei em pular, mas não pude.
As águas não correm mais tão leves,
percorrem meu corpo e meu tempo.
Há âncoras aqui.
Esse pesar me finca no teu mundo,
já vivi isso antes.
E eu me jogo outra vez,
questiono-me: onde estão os meus medos?
Seguro suas mãos,
e meu corpo vai velozmente virando uma extensão do seu.
Sua respiração se confunde à minha,
seu beijo tem meu gosto.
Não há como nadar nesse mar,

eu me afogaria se pulasse do barco.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

TARDE

Só me pediu oração
e foi quase embora
de forma tão ingênua.

Mas eu juro que vi
nos seus olhos
a sede que teve em me abraçar,
mas, como qualquer,
quis despedir assim,
de cabeça erguida.

De longe eu sentia
seu suspiro baixinho
e frequente,
mas nada vi no seu olhar,
que se mantinha firme
nos seus sapatos.

Entrou no carro,
afrouxou os cintos
e seguiu
ao som de Jorge Ben.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

VAIDADE II

Ruas vazias de amor,
sedes de ilusão.
Sem ar, eu sigo sem pudor,
derrubando os medos
como se eu fosse um herói,
e nada mais me importa
além de poder voltar pra casa.

Chuvas tão ácidas
quanto minhas palavras,
ventos fortes
como meu olhar.
Eu penso que posso
não voltar pra casa.

As primaveras e verões
se confundem,
meu sol não é mais quente.
E a neblina me cegou
pra verdade,
e eu insisto em negar.

Sem meu egocentrismo,
eu já virei pó.
Por onde meus pés tocam,
o verde muda de cor,
e meu pulmão diminui
a cada suspiro livre de culpas.

Eu finjo fazer minha parte
dignamente.
Tudo tão correto
que eu não sei
o que é errado.

COR DE CORAL

Com simplicidade e clareza,
sua maior fonte de juventude
é o sorriso.

Ele, que brota de sua boca
cor de coral,
afasta qualquer tristeza
e traz o inexplicável brilho
em seus olhos,
mesmo após um dia exausto.

Sua arqueada de sobrancelha,
tão sua por “pertencência”,
esconde o medo
apimentado com segurança.

No banho, afoga qualquer empecilho
que seus pés tenham tropeçado pelo caminho,
e todos os dias ela grita
com sua falta de coragem,
nocauteando a incerteza
enquanto pinta suas unhas de vermelho.

E em seu longo caminho durante o dia,
saltando de nave em nave
cheias de “figuras” pálidas,
ela só se prende
ao seu velho aparelho
tocador de música.

E, nesse momento,
tudo vira trilha sonora,
como se estivesse num filme
e ela fosse a protagonista da cena.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

RÁDIO VELHO

Dos teus amores antigos,
agora sou um,
desses que deixaram saudades,
perfumes
e alguns goles de rum.

Desses que tu gostas de lembrar,
como das vezes
que colocava músicas
no seu rádio velho —
perdia tardes...

Agora sou um
dos teus amores antigos,
guardada numa agenda velha
e no lembrete de aniversário.

Sou agora bem melhor que antes,
mais sutil e interessante.
Agora sou assunto de bar,
virei história pros teus amigos
e pra quando tiver seus filhos.

Sou teu escape,
teu ciúme
e tuas dúvidas.
Virei santa,
tantas
e única.

Sou, dos teus amores antigos,
o que lhe causa ansiedade
quando me comparas
à tua realidade.

Das fotos escondidas e ocultas,
sei que ainda me olhas por vaidade —
uma pitada de egoísmo
e saudade.

E, como amor antigo,
já fui,
sem rastros,
sem laços,
deixando páginas rasgadas,
sujas,

mas escritas a lápis...

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MEU POSEIDON

Dentro de mim
crescia uma luz,
iluminava meu próprio
poder de existir,
desafiando meu ritmo
e tempo,
bagunçando a casa
e arrumando a alma.

Sentindo medos
e passando segurança,
contando histórias
e aprendendo a viver.
Cada suspiro novo
era um despertar,
cada noite em claro
era um sorriso bobo
me encantando.

Eu já nem me reconhecia,
meu corpo, que ganhara
uma extensão;
transformei-me, de repente,
em mil.
Dançava,
cantava,
eu era um palhaço azul,
e sabia que, nesse palco,
eu podia —
e quebrava a quarta parede.

Sorrir já é
de uma facilidade,
e cada coisa que eu vejo
me lembra sua pele.
Eu sei que o mundo
virou de cabeça pra baixo,
mas, na virada,
caía tudo
que não tivesse você.

Senti uma imensa âncora
nos meus pés,
mas sem sofrimento,
com medos,
com posturas
e com ditados.
Eu já me repetia,
e, quando me olhava
no espelho,
via o meu passado.

O mundo ficou azul,
e agora eu já chorava
com cenas de filme,
arrepiava-me com um beijo
e passava todas as tardes
suja de tinta e chocolate.

Reaprendi a fazer
as contas de matemática
e sobre interseção.
Sei tudo sobre peixes
e tubarões,
e aprendendo
sobre dinossauros.

Na livraria, agora,
visito mais de uma sessão,
e as balas já não têm
o mesmo gosto.
Tudo mudou de cor
e tom,

eu já não sei viver
sem meu João.

SEU NOME

Clarice,
tantos nomes significam,
mas é seu por merecer.

Clarice,
uma simplicidade
que chega à complexidade.

Herdou da vó
um nome de clareza,
como água límpida,
mas que engana
na profundeza.

No canto,
ela quer alcançar a liberdade,
e, na dança,
busca sem ritmo
o caminho da vida.

Todos os dias
ela se deita
dando seu último,
bem dado suspiro,
e, logo pela manhã,
recomeça
como se fosse
seu primeiro dia de vida.

Parece mania,
praga, sei lá;
todo nome Clarice
traz consigo uma angústia,
apimentada de felicidade
e asas nos pés.

Parece não dar tempo
de viver tudo aquilo
que ela pensa ser.

FRESTA

O vento batia,
e, pela fresta da porta, entrava a brisa,
e essa brisa batia em minhas pernas,
subindo suave e intrigante,
enquanto eu observava
onde suas mãos passeavam.

Uma luz pálida iluminava o quarto,
e o calor se espalhava
junto com suas mãos.

Os sons dos carros
iam deixando a velocidade
equiparada com a respiração,
que eu já não sabia
se era minha ou sua,
e o pulsar,
cada segundo,
mais eficaz e firme.

O gosto se misturava
em nosso céu,
e minha boca sussurrava um segredo...

Não sei se é manhã ou tarde;
o tempo, agora, tanto faz,
já temos o nosso ritmo.

Um giro, dois ou três...
perdi as contas.
Somos todos num só.